Obra Limpa
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Na construção empresarial, segundo estudo recente sobre gerenciamento de RCC em canteiros publicado pelo Sinduscon SP, é comum solos escavados representarem 6 (seis) vezes a quantidade total dos demais RCC gerados, ou seja, entre 85% e 90% do volume total (SINDUSCON, 2015), decorrentes da necessidade de viabilizar execução de fundações, contenções, nivelamento topográfico e ocupação dos espaços em sub-solos para estacionamento. Assim, há intensa geração de solos extraídos em escavações e exportados por ocasião de serviços de terraplenagem, com impacto local significativo representado pela intensa circulação de veículos, requerendo-se cuidado em relação à estabilidade das superfícies no entorno, impedindo erosões e o carreamento de sedimentos para as vias para o meio-fio e galerias. Em áreas metropolitanas adensadas é comum o risco de contaminação de solos por substâncias perigosas, por conta de atividade industrial ou outra geradora de resíduos perigosos que eram outrora exercidas no próprio local ou mesmo na vizinhança. Neste caso, todo o processo de destinação deve ser precedido por procedimentos de avaliação ambiental para definir estratégia de mitigação dos riscos, definindo soluções tecnicamente seguras para manejo e destinação em conformidade com a legislação e as normas aplicáveis.  
 
Marcante no início do fluxo de atividades numa obra, a retirada dos solos deve ser precedida pelo cadastramento da obra em AMLURB, atendendo o que dispõe a Lei no 13.478/2002 e o Decreto regulamentador no 46594/2005. O não cadastramento expõe empreendedores a penalidades progressivas (multas, suspensão temporária das atividades e cassação do alvará), conforme informa a AMLURB em seu portal no link http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/servicos/amlurb/cadastro_amlurb/index.php?p=24444.
 
As empresas que executam as obras de terra devem providenciar transporte utilizando caminhões cadastrados em AMLURB (frota própria ou terceirizada), cabendo verificar não só a efetividade dos cadastros como também a existência de relação contratual formal entre as empresas de terraplenagem e seus carreteiros (pessoas físicas). Somente após o cadastramento da obra como grande gerador e a verificação dos documentos dos transportadores é que ganha caráter formal a emissão do CTR (Controle de Transporte de Resíduos), obrigatório para acompanhar cada carga de solo formada para transporte ao destino escolhido. 
 
No regime convencional de contratação das empreitadas globais de terraplenagem, as empresas ofertantes de tais serviços incluem custos de destinação em seus preços. Há notório risco nesta prática, pois a concorrência e necessidade de redução dos custos de destinação induz a escolha de soluções mais baratas e possivelmente menos compromissadas. No Estado de São Paulo, os Aterros de Resíduos de Construção (classe A) cumprem de maneira mais controlada o papel de receber e dispor grandes volumes de solos escavados, no contexto, principalmente, da recuperação ambiental de áreas degradadas pela atividade de mineração (antigas cavas de pedreira e portos de areia), com amparo em licenciamento ambiental pela CETESB condicionado pela observância de cuidados na operação, implicando em controle sobre a forma de disposição dos solos para minorar riscos geotécnicos e hidrológicos. Concorrentemente, entretanto, a legislação ambiental paulista (Resolução SMA no 56/2010) permite utilização de solos excedentes na regularização topográfica de terrenos, dispensando o licenciamento ambiental. Desta forma, municípios expedem alvarás de terraplenagem a proprietários de terrenos que importam solos de maneira fracionada e comumente dispersa, potencializando riscos geotécnicos e até hidrológicos. A execução de obras de terra, neste contexto fracionado e disperso, também é feita pelas próprias empresas de terraplenagem que captam solos e precisam destiná-los. O espraiamento urbano protagonizado pelas muitas obras que importam solos para viabilizar “simples” regularização topográfica é característico da marcha degradadora que roubou 113 km2 de áreas vegetadas entre 1986 e 2008 na região metropolitana de São Paulo. Neste contexto, resultante da intensa execução de obras de terraplenagem, estima-se perda média anual de solos por erosão de 13,5 ha/ano, correspondentes a 8,1 milhões de m3 de sedimentos que assoreiam redes de drenagem naturais e construídas (SANTOS, A.R. , 2011). 

Solução evita transporte, destinação e perda de materiais e conta pontos nas certificações de sustentabilidade

A rivalidade entre Corinthians e Palmeiras ganhou mais um capítulo com a divulgação da notícia de que resíduos do antigo estádio Palestra Itália foram reutilizados na construção da Arena Corinthians. Entretanto, esta união não durou muito tempo, pois segundo a construtora responsável pela edificação da nova casa corintiana, foi realizado o uso temporário de material reciclado em forrações de pisos para máquinas pesadas, que foi retirado após a utilização, sendo encaminhado para aterros sanitários certificados. “Em um caso como este os resíduos de alvenaria, concreto, argamassas e cerâmicos são passíveis de reutilização na forma de agregado reciclado em pavimentação ou em concretos sem função estrutural”, explica o mestre em Tecnologia Ambiental, Elcio Careli, diretor da empresa Obra Limpa.

Este episódio dos estádios foi abordado por parte da imprensa como sendo reuso de entulho, termo empregado de maneira equivocada conforme esclarece Careli. “Os resíduos da construção civil (RCC) são equivocamente denominados como entulho, um termo impreciso e genérico. Os RCC são divididos em quatro classes (A, B, C e D) e aqueles provenientes de alvenaria, argamassas, cerâmicas e concreto (classe A) são os que podem ser reciclados para utilização em obras na forma de agregados. Falar, portanto, de reciclagem de entulho pode gerar confusão e mal entendido, porque assim como o uso da palavra ‘lixo’ para se referir aos detritos domiciliares, ‘entulho’ tem conotação pejorativa e depreciativa”, afirma.

VANTAGENS

Além da colaboração com o meio ambiente, a reutilização de resíduos proporciona também economia financeira. “Se considerarmos a hipótese da utilização de agregados reciclados em substituição aos naturais, os preços praticados pelo mercado chegam a ser cerca de 30% inferiores. Mas o grande benefício para construtoras está relacionado à busca pela minimização da geração dos resíduos, uma vez que são evitados o transporte, destinação e perda de materiais”, diz o profissional, ressaltando que processos de certificação ambiental consideram importante esta ação e, por isso, estabelecem metas mínimas para pontuação e até premiam o uso de materiais que tenham em sua composição resíduos reciclados.

COMO REUTILIZAR?

A viabilidade de reuso generalizado dos resíduos classe A na forma de agregados reciclados depende de um bom processo de gestão. “É sempre importante analisar com cuidado o melhor processo de destinação dos resíduos, considerando o potencial de reuso na própria obra geradora. Outra opção poderá ser reciclar os materiais em canteiro e transferi-los para serem empregados em uma construção diferente. Porém, vejo um sério limite para generalizar tal prática: o controle efetivo do processo de gestão para garantir produção técnica e economicamente viável dos agregados que são demandados em obras de terceiros. A superação deste limite depende de cuidados e de aprendizado típicos de gestores de resíduos especializados na produção seriada de agregados reciclados”, comenta Careli.

Para empregar esta solução sustentável, os cuidados começam durante a demolição. Nessa etapa, torna-se necessária a caracterização dos componentes, identificando limites relativos à presença de metais (contaminação por cloretos), gesso (contaminação por sulfatos), madeira (contaminação por matéria orgânica), placas cerâmicas, azulejos ou louças sanitárias (potencial reatividade álcali-sílica) e outros materiais indesejáveis. “Para cada tipo de construção pré-existente deve ser considerado um fluxo adequado de atividades para livrar os resíduos classe A dos contaminantes. Assim, é fundamental retirar peças de madeira, tubulações em PVC ou metálicas, forros de gesso, estuques, amianto, lâmpadas, entre outros. Comumente, demolidores já extraem materiais passíveis de valorização, como portas, esquadrias, luminárias e portões”, alerta o profissional.

Ele indica que a reciclagem em canteiro de resíduos classe A geralmente é feita para produção de brita corrida (sem peneiramento), o que possibilita uso simplificado dos agregados reciclados em reforço de subleito ou para mera estabilização do terreno exposto. “Nestas circunstâncias, é possível contar com extração magnética acoplada ao conjunto de reciclagem, sendo necessário providenciar equipamentos de apoio para fragmentação de peças em concreto armado, tais como tesouras ou rompedores. Esta foi a prática comum nas grandes demolições dos antigos estádios de futebol”, afirma.

Cada caso deve ser avaliado de maneira cuidadosa, examinando peculiaridades inerentes a custos operacionais, perfil de geração dos resíduos, período de execução, possibilidades de reutilização interna e alternativas para destinação externa (custos de logística) para tomada de decisão equilibrada. “Na realidade, creio que as soluções mais abrangentes e duradouras estão na especialização, pressuposto para consolidação das usinas recicladoras. Neste contexto, busca-se equilíbrio econômico e tecnológico de modo mais duradouro e confiável”, alega Careli, lembrando que o potencial para consumo dos agregados reciclados é exclusivo de obras de engenharia, quer sejam habitacionais, pavimentação, saneamento, drenagem ou infraestrutura. “Há, ainda, a possibilidade de tais materiais serem incorporados em novos produtos, substituindo parcial ou integralmente matérias-primas convencionais. No entanto, o desenvolvimento das oportunidades deve ser sempre condicionado ao conhecimento tecnológico e aos padrões locais de geração de RCC”, finaliza.

COLABOROU PARA ESTA MATÉRIA

Elcio Careli – Economista formado pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Tecnologia Ambiental pelo Centro Paula Souza – SP. É diretor da consultoria Obra Limpa e coautor do Manual de Gestão Ambiental de Resíduos da Construção Civil publicado pelo Sinduscon/SP.
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Além de reduzir as chances de deposição em locais clandestinos e contribuir para aliviar a pressão sobre aterros de inertes, representa custos menores, e permite o reaproveitamento de materiais antes descartados

A construção, indicam estimativas, responde por pelo menos metade do entulho gerado nas cidades brasileiras. E é de responsabilidade do gerador, independe do porte, cuidar para que os resíduos oriundos de demolições, renovações ou obras tenham destinação apropriada.

A reciclagem é uma alternativa para diminuir o impacto ambiental desses resíduos. A prática é vantajosa em vários aspectos: reduz as chances de deposição em locais clandestinos e contribui para aliviar a pressão sobre aterros de inertes, cada vez mais saturados. Para o gerador, representa custos menores com a destinação, além da possibilidade de reaproveitamento de materiais antes descartados e do emprego, na própria obra, de agregados reciclados, em substituição a novas matérias-primas extraídas do meio ambiente.

A opção pela reciclagem é atualmente facilitada pela existência de um mercado, em crescimento, com empresas de captação, manejo e valorização dos resultados da construção. E também por novos conceitos que, aos poucos, chegam aos canteiros. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), observa o urbanista Tarcísio de Paula Pinto, da I&T Gestão de Resíduos, inspira uma visão na qual a demolição, por exemplo, passa de geradora de entulho a grande fonte de matéria-prima secundária.

Mesmo antes da sanção em 2010 da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a construção civil já contava com regulamentação sobre o tema sob a forma de resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). A existência de uma legislação nacional, entretanto, coloca pressão adicional sobre o setor.

Classificação

Embora os benefícios da reciclagem sejam abrangentes, a prática ainda é pouco empregada nos canteiros pelo país. De acordo com Levi Torres, coordenador da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon), o volume de produção de agregados reciclados é pequeno, dado o tamanho do mercado de construção civil brasileiro. Mensalmente, são beneficiados pelas usinas de reciclagem 380 mil metros cúbicos de produtos como rachão, pedrisco, brita, bica corrida e areia.

Com características muito semelhantes aos agregados naturais, esses produtos têm como matéria-prima resíduos classe A – categorização proposta pela resolução 307/2002 do Conama. Ou seja, são confeccionados a partir do beneficiamento de concretos, cerâmicas, pedras e argamassas. No processo construtivo, informa Levi Torres, tais resíduos chegam a representar metade da geração. Já em demolições, ultrapassam a casa dos 80%.

Também são passíveis de reciclagem e reaproveitamento de resíduos classe B, tais como vidros, madeiras, metais, papelões e plásticos. Mais recentemente, o gesso foi incluído no grupo. O material pode ser usado como ingrediente na produção de cimento ou transformado em gesso agrícola.

Triagem

Demolição

Uma etapa fundamental quando se fala em gestão de resíduos da construção civil é a triagem. Para executá-la de forma eficiente, o canteiro deve contar com áreas destinadas à separação e acondicionamento dos diferentes materiais. E os trabalhadores devem ser treinados para colaborar no processo. Segundo as recomendações da resolução 307 do Conama, a segregação deve ser feita preferencialmente nos locais de origem dos resíduos, logo após a geração, e transportados internamente para posterior acondicionamento.

Os cuidados visam assegurar a qualidade do resíduo que será enviado para reciclagem. “Um dos grandes desafios dos gestores de obras é garantir uma triagem que respeite as condições de mercado para valoração. O reciclador precisa operar de maneira ótima, e não consegue fazer isso recebendo materiais misturados”, pontua Élcio Carelli, diretor da consultoria Obra Limpa.

Esse processo de ordenamento das atividades no canteiro motivada pela reciclagem traz ganhos para o empreendedor, destaca Tarcísio de Paula. “A atenção gerencial aos resíduos no canteiro faz com que surja à vista material antes afogado em pilhas de entulho e que entra novamente no fluxo de produção, eliminando algo de compra.” Traz, ainda, uma percepção sobre a necessidade de diminuir a geração e de aperfeiçoar métodos construtivos.

Agregado reciclado

De acordo com Levi Torres, da Abrecon, diferentes usinas produzem agregados diversos, mas, no geral, o processo de transformação envolve: chegada do caminhão com entulho ao pátio de triagem, checagem para saber se há resíduos de outras classes, britagem e peneiramento.

A reciclagem dos resíduos pode ser também realizada no próprio canteiro, por meio do emprego de equipamentos móveis. A gestão in loco é vantajosa para empreendimentos de maior proporção e, por isso, com maior volume de produção de resíduos, além de espaço suficiente para receber um britador. Os agregados processados no canteiro são reaproveitados na obra, geralmente como revestimento ou argamassa de assentamento. A redução dos custos envolvidos no descarte do entulho e com a compra de material natural justificam a adoção da prática.

É bom saber

Os produtos da reciclagem não têm função estrutural. Porém, possuem uma série de outras aplicações. Conheça os usos recomendados pela Abrecon.

  • Areia: produção de argamassa de assentamentos, blocos e tijolos de vedação.
  • Pedrisco: fabricação de artefatos de concreto, como mesas e bancos de praça, pisos intertravados, manilhas de esgoto.
  • Brita: obras de drenagem e produção de concretos não-estruturais.
  • Bica corrida: base e sub-base de pavimentação, reforço e subleito de pavimentos e regularização de vias não-pavimentadas.
  • Rachão: obras de pavimentação, drenagem e terraplanagem.

As características dos agregados e as condições de uso são dadas pelas normas NBR 15.115:2004 e NBR 15116:2004.

Logística reversa

Um dos instrumentos da Política Nacional de Resíduos Sólidos é a chamada logística reversa. Élcio Careli observa que o conceito não significa necessariamente o retorno de resíduo ao fabricante. A volta à cadeia produtiva, após processos de transformação dos resultados da construção em produtos de valor para o uso do próprio gerador, também é uma forma trabalhar o conceito na prática. E as atividades aí envolvidas – entre elas, a reciclagem – são parte de um circuito de logística reversa.

Nesse sentido, sugere o coordenador da Abrecon, Levi Torres, o empreendedor pode aproveitar o transporte do resíduo para a usina e solicitar ao caçambeiro que retorne à obra com agregado reciclado. Por um lado, o gerador estará garantindo que a destinação foi adequada e, por outro, adquirindo um material útil na obra e de valor inferior ao agregado natural. “Ele pode aproveitar o reciclado na montagem do canteiro, em pequenas estruturas, muros, valas, no estande de vendas, gastando muito menos.” Pôr a ideia em prática exige planejamento e o conhecimento prévio dos resíduos recepcionados pelas usinas de reciclagem mais próximas e dos agregados que são ofertados por estas.

Transporte

O transporte externo é elo frágil da cadeia de transformação dos resíduos da construção. No caminho entre a fonte geradora e o destinatário há risco de desvio do material, que pode parar em locais irregulares. Para que isso não ocorra, algumas providências são recomendadas:

  • A primeira é checar se há informações no município sobre transportadores cadastrados. Uma vez contratado o serviço, é preciso exigir do caçambeiro o retorno do documento de Controle de Transporte de Resíduo (CTR) devidamente carimbado e assinando pelo destinatário, comprovando que material foi entregue na usina de reciclagem (ou em áreas licenciadas para receber entulho da construção, se esta for a opção).
  • Para maiores garantias, indica Élcio Careli, é possível atrelar o pagamento do transportador à entrega do CTR ou de um ticket de balança da unidade recicladora. Ou ainda definir previamente o destino dos rejeitos, ficando sobre o caçambeiro apenas a responsabilidade pelo frete. “O gestor precisa conhecer muito bem quem ele está contratando. Ele deve acompanhar, auditar, criar procedimento para qualificar não só o transportador, mas os destinatários de resíduos. E, preferencialmente, caminhar para estabelecer uma relação comercial direta com o próprio destinatário”, recomenda o Élcio.

Colaboraram para esta matéria

Levi Torres – Formado em Administração em Marketing, é coordenador da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon). Na entidade, é responsável pelos grupos de reenquadramento tributário, integração e legislação. Atuou como consultor na área de resíduos de óleo comestível/biodiesel e papéis.

Élcio Careli – Economista, mestre em Tecnologia Ambiental pelo Centro Paula Souza. É diretor da consultoria Obra Limpa e professor dos cursos sobre construção sustentável do GBC Brasil.

Tarcísio de Paula Pinto – Urbanista, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP), é diretor-técnico da I&T Gestão de Resíduos. Foi consultor do Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Cidades, Caixa, BNDES e BID.
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Redação AECweb

Um dos mais importantes setores da economia, a construção civil é essencial ao desenvolvimento no país, sendo responsável por mais de 2,327 milhões de empregos diretos e indiretos, de acordo com pesquisa do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo) e da FGV (Fundação Getulio Vargas). Em contrapartida, o setor se caracteriza como um dos que mais consomem recursos naturais, desde a produção dos insumos utilizados até a execução da obra e sua operação ao longo de décadas. No Brasil, apropria-se de 75% do que é extraído do meio ambiente.

RESÍDUOS E CANTEIRO

Apoderando-se dos recursos naturais, o setor é também, entre todas as atividades produtivas, o maior gerador de resíduos. Segundo Diana Scillag, diretora do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável -, de tudo o que extrai da natureza, apenas entre 20% e 50% das matérias-primas naturais são realmente consumidas pela construção civil. Dados revelam que o volume de resíduos gerado – entulho de construção e demolição -, chega a ser duas vezes maior que o volume de lixo sólido urbano. O economista e mestre em tecnologia ambiental Elcio Carelli, da empresa Obra Limpa, afirma que 60% do total de resíduos produzidos nas cidades brasileiras têm origem na construção civil. “Em São Paulo, estima-se a geração de 17 mil toneladas/dia de resíduos, sendo que 30% vêm da construção formal e o restante da informal”, diz ele.

A produção de materiais de construção é, ainda, responsável por poluição que ultrapassa limites tolerados em poeira e CO2. O processo produtivo do cimento necessariamente gera o gás carbônico, um dos principais causadores do efeito estufa. Para cada tonelada de clinquer (componente básico do cimento) produzido, mais de 600 kg de CO2 são lançados na atmosfera. Junte-se o sedimento ambiental da produção de outras indústrias com o crescimento mundial da fabricação de cimento, o resultado é que a participação do insumo no CO2 total mais que dobrou no período de 30 anos, entre 1950 e 1980. Outros materiais usados em grande escala têm problemas similares.

Scillag afirma que “a reciclagem é prática ideal de transformação para reduzir o volume de extração de matérias-primas, através da substituição por resíduos reciclados, redução de áreas destinadas a aterros, redução de energia referente ao processo de extração, além de possibilitar o surgimento de novos negócios”.

ENERGIA E ÁGUA

“Hoje, aproximadamente 40% da energia mundial são consumidas pelos edifícios”, diz Scillag, explicando que o consumo energético nas edificações ocorre em dois momentos. Na etapa pré-operacional ou de energia embutida, aquela da extração e fabricação de materiais, do transporte até a obra e da construção do edifício. “Porém, a etapa em que a edificação mais consome energia é durante sua ocupação, em manutenção e demolição”, diz. O consumo de energia é diferente dependendo do setor – comercial, público ou residencial. O consumo de energia elétrica do setor residencial no Brasil é o mesmo que o consumo somado do setor público e comercial.

 

“Essa é uma das maiores oportunidades para construção civil mundial no combate as mudanças climáticas. No Brasil, por exemplo, as edificações consomem anualmente 44% do total de energia elétrica do País. O caminho para alcançar a eficiência energética é o investimento em projetos bioclimáticos com uso, quando possível, de energias renováveis”, recomenda. Com o  uso racional de recursos é possível reduzir entre 30% e 40% o consumo de energia e de água.

De acordo com o comitê temático da água do CBCS, a construção civil é responsável por exorbitante parte do consumo de água potável no mundo. Em áreas urbanizadas chega a ser de cerca de 50% da água potável fornecida à região, podendo chegar a 84% como ocorre na cidade de Vitória (ES), de acordo com a Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan). O uso adequado de fontes alternativas de água em substituição à água potável pode ajudar a reduzir esse valor em 30% a 40% colaborando para a mitigação dos impactos causados pela construção civil no meio ambiente.

Na contramão do desperdício, são várias as fontes alternativas de água que podem ser implementadas. Hoje, o Brasil tem tecnologia para o tratamento e uso de água subterrânea, água pluvial e água cinza – e, quando necessário, de instalação de ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) no próprio edifício. O uso dessas fontes é ação positiva para a preservação ambiental, principalmente em edifícios em que a gestão da operação do sistema seja permanentemente garantida, de forma a evitar a contaminação do ambiente e preservar a saúde dos usuários.

INFORMALIDADE

Um dos pilares da sustentabilidade, a qualidade de vida que inclui a dos  trabalhadores do setor, é amplamente desrespeitada no Brasil pela  construção civil, flagrada em elevada escala de informalidade: cerca 40% dos R$ 160 bilhões gerados anualmente pela atividade é informal.

As conseqüências vão desde a perda de arrecadação fiscal até o desperdício de materiais, resultando em má qualidade das unidades produzidas e aumento da demanda por recursos ambientais para reparar os problemas existentes. Segundo Vanderley John, professor-doutor em engenharia civil da Escola Politécnica da USP e conselheiro do CBCS, 72% dos trabalhadores estão alocados na construção informal, privados dos direitos sociais e apresentando apenas 25% da produtividade dos trabalhadores da construção formal, e apenas 44% da produtividade média dos trabalhadores brasileiros.

“O maior entrave para a introdução de práticas mais sustentáveis é certamente a informalidade. Não existe sustentabilidade sem respeito completo ao contrato social vigente. A informalidade reduz dramaticamente o potencial de fazer política pública e até de cumprimento dos contratos”, comenta o professor, que recomenda aos interessados em selecionar fornecedores que atuam formalmente, uma visita à ferramenta ‘Seis Passos’, no site do CBCS (www.cbcs.org.br)

CUSTOS

“O custo de uma construção mais sustentável pode ou não ser maior do que a da convencional, dependendo de vários fatores, tais como a localização da obra e o nível de sustentabilidade que se pretende”, diz a arquiteta Silvia Manfredi, diretora da ANAB Brasil – Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica. Segundo ela, a sustentabilidade deve priorizar o desenvolvimento de um bom projeto de arquitetura. “É o projeto que definirá as estratégias bioclimáticas, priorizando soluções visando a eficiência energética e conforto; o uso de sistemas e tecnologias para redução do consumo de água; e, principalmente, a otimização dos recursos utilizados na obra. Com isso, pode-se chegar a um custo de 1% a 5% maior que o de construções tradicionais – e esse custo vem caindo nos últimos anos, no mundo todo. Devemos lembrar que o custo de operação de um edifício ao longo de 50 anos chega ser cinco vezes maior do que o custo de construção propriamente”, diz ela.

Adotando práticas sustentáveis, o Complexo Rochaverá conseguiu a certificação LEED, na categoria Gold.

Exemplo recente no país, o complexo Rochaverá, da Tishman Speyer, embarcou tecnologias e práticas sustentáveis que renderam às duas primeiras torres, já concluídas, a certificação LEED, na categoria Gold. Dos R$ 600 milhões de investimento total no complexo Rochaverá, as torres A e B consumiram a metade. “Essa obra ficou entre 2% e 3% mais cara na comparação com uma construção convencional. Através da economia proporcionada à operação do edifício, o payback é de três anos, principalmente se o edifício for locado rapidamente, o que ocorreu com os dois primeiros edifícios”, enfatiza Luiz Henrique Ceotto, diretor de Design & Construction da Tishman Speyer, empresa que concebeu o empreendimento. Nem por isso a locação é mais cara. Deveria, segundo Ceotto, porque o cliente vai pagar um condomínio muito menor. “O condomínio de um edifício como Rochaverá é 30% menor do que o de um prédio convencional”, conclui.

Para Silvia Manfredi, um dos caminhos apontados para tornar a obra mais sustentável, a industrialização da construção elimina desperdícios na obra; otimiza o uso dos materiais; aumenta a produtividade e tende reduzir a informalidade da mão-de-obra. “Porém, dependendo dos materiais utilizados, nem sempre a industrialização significa um ganho em termos biológicos, ou seja, na saúde de seus usuários. É o caso dos vários materiais que utilizam compostos orgânicos voláteis (COVs) – composição de milhares de elementos químicos, como o formaldeído e benzeno -, presentes na fabricação de nylon, tintas, carpetes, colas e solventes”, alerta a arquiteta.

Redação AECweb

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